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A crise pós Versalhes e a II Guerra Mundial

O fim da I Guerra Mundial transformou radicalmente o cenário internacional no início século XX.  Se no começo da guerra havia três impérios (Otomano, Austro-Húngaro e Russo, no seu encerramento havia a fragmentação de ambos e o surgimento do primeiro estado socialista da história. A Alemanha foi considerada culpada pela Guerra e teve de arcar com os custos do conflito além de sofrer a imposição de compromissos que claramente afetariam o seu desenvolvimento posterior: não militarização, impossibilidade de se reconstruir economicamente bem como perdas territoriais. O fortalecimento dos EUA também é um resultado da I Guerra Mundial. Não tendo entrado na Guerra até 1917, os EUA foram decisivos na vitória das potências tríplice aliança. Tendo lutado a guerra em território europeu ao seu fim os EUA não possuíam nenhum problema territorial a ser resolvido na paz de versalhes além disso a guerra europeia contribuira fortemente para o crescimento econômico norte americano. A guerra ecl...

O Concerto Europeu

Este texto foi escrito tendo como base o livro História das Relações Internacionais Contemporâneas cujo organizador foi o professor José Flávio Sombra Saraiva, livro que traz especialistas em História das Relações Internacionais e que eu julgo didático, crítico e bem escrito, características, aliás que eu não tive pretensão de copiar. Após a tentativa fracassada de Napoleão Bonaparte levar os princípios da revolução francesa por meio do exército para outras regiões da Europa, as potências vencedoras temorosas do surgimento de outra hegemonia no continente organizaram, no congresso de Viena (1815), um concerto entre si para reordenar as relações internacionais. O arranjo diplomático europeu diz respeito a um conjunto de regras, normas e padrões de comportamento comuns entre as potências que teve desdobramentos nas relações intra e extra europeias. A idade média tinha como traço fundamental a ideia de cristandade que determinava conceitos e práticas de governo e de autoridade ...

O reconhecimento da personalidade jurídica internacional de atores para além dos Estados

Uma das reflexões mais relevantes na área do DI contemporâneo é a que tenta fazer o internacionalista vislumbrar as tendências que se apresentam no horizonte no que diz respeito ao tema da capacidade jurídica dos sujeitos de DI. Os estados, segundo doutrina clássica de Juan Antonio Carrillo Salcedo, são sujeitos primários de DI uma vez que contam com elementos constitutivos que lhes confere capacidade jurídica internacional a saber: governo centralizado, população, território e soberania. Já as organizações internacionais também constam no rol de sujeitos internacionais, porém de caráter derivado ou secundário tendo como elementos constitutivos um tratado, organicidade e finalidade. Se sobre os estados e as organizações internacionais não resta dúvida quanto ao consenso de sujeito internacional de direito. Sobre as organizações internacionais não governamentais, empresas transnacionais e a pessoa humana há debate e discussões de modo que elas ainda não foram completamente acei...

União Européia e Teoria de Relações Internacionais

Do ponto de vista das relações internacionais um dos acontecimentos mais importantes do século XX foi a constituição de um bloco supranacional europeu. O processo que teve início com o fim da II guerra mundial, em que as potências europeias se viram prezas ou a Washington ou a Moscou, serviu de ensejo para o início do processo de integração. Com vistas a diminuir o poder de influência soviética na europa, os EUA não só apoiaram a construção de instituições comuns entre os países da região como auxiliaram na reconstrução da infraestrutura física e dos fundamentos econômicos por meio do plano Marshall. Não obstante, os próprios europeus percebendo a perda relativa de poder de seus estados no sistema internacional e diante da catástrofe da II guerra mundial para a sua população e desenvolvimento vislumbraram meios de garantir um arranjo institucional em que a guerra seria impensável. O primeiro ato que consolidou a formação do que hoje se conhece por União Europeia foi a assina...

Paz e Guerra entre as Nacoes - Raymond Aron - Clássicos de RI

Paz e guerra entre as nações não é um livro para ser lido, é uma obra para ser estudada. Em suas quase mil paginas repletas de análises profundas sobre os acontecimentos da diplomacia estratégica o autor traça um conjunto de conhecimentos que servem de referencia para todos aqueles que desejam compreender  RI sem se basear em mitos, em abstrações, rumores e/ou  caricaturas. Raymond Aron nasceu na Franca em 1905, formado em filosofia pela École Normale Superieure, uma das mais prestigiadas instituições de ensino à época, após um breve período na Alemanha retorna para concluir o seu doutorado em Filosofia da Historia. Durante a II guerra mundial se muda para a Inglaterra. De volta a Paris dedica-se ao jornalismo e passa a colaborar com diversas publicações. Durante a década de 50 é convidado para lecionar em diversas universidades estrangeiras e rascunha  Paz e Guerra entre as nações em 1960, na década seguinte teve forte participação na política francesa ao lado de ...

Projeto para tornar perpétua a paz na Europa - Abbé de Saint - Pierre- Clássicos de RI

O abade de São Pedro foi um homem nascido em 1658-1743 no seio da pequena nobreza francesa e que ingressou na vida monástica por incapacidade física de ocupar um cargo como militar. Tem no livro publicado em 1713 sua maior contribuição para o pensamento político internacional por se esforçar em convencer os líderes da época a se unirem numa cristandade pan européia para viabilizar a paz na Europa. O projeto é concebido com a finalidade de ser uma constituição européia a que os Estados adeririam e cujas leis obedeceriam, assim há a exposição de artigos e suas respectivas explicações bem como uma parte em que o abade se presta a responder todas as críticas que foram feitas à seu livro afim de dirimir quaisquer dúvidas sobre o projeto. Eu senti pela leitura que o padre é um racional irracional, um racionalista apaixonado que vai até as últimas consequências para convencer seu público. Os artigos fundamentais do projeto do abade são os que se seguem após o que farei alguns comentá...

A Escola Inglesa Martin Wight e Hedley Bull - Clássicos de RI - Parte 2

 Se Martin Wight foi o maior intelectual da escola inglesa de relações internacionais, Hedley Bull foi o seu maior discípulo. Nascido na Austrália em 1932, mas passando a maior parte de sua vida na Inglaterra onde participou das famosas conferencias ministradas por Martin Wight na London School of Economics, tendo  sido também professor de várias instituições vindo a falecer vitima de um câncer em 1985 com 53 anos de idade. Seu trabalho fundamental é o clássico "A Sociedade Anárquica: um estudo sobre a ordem internacional". Nesse estudo vemos a influência das idéias de Wight nas tipologias do pensamento internacional, o direito e a  sociedade internacional. Se, por um lado, há elementos que permitem sentir a importância do mestre no discípulo, por outro, temos que este superou o seu mentor na abrangência e na densidade do estudo da ordem internacional e creio que esse será o seu maior legado para os estudos de RI. Ao analisar a ordem internacional Hedley Bull...